domingo, 29 de abril de 2012

[À Lareira Com] - Emilio Miranda, autor de "Uma linha de Torres"

Bom dia e Bom Domingo.
Hoje, mais um À Lareira Com. Desta vez o autor é Emílio Miranda. Curiosos?






À Lareira Com..Emílio Miranda, autor de "Uma Linha de Torres"


Fale-nos sobre si.

Nasci há 46 anos. E em 46 anos muito há a dizer. Coisas que não sei até que ponto poderão ser interessantes para outras pessoas, mas há uma coisa que tenho percebido que intriga muita gente: o facto de ser militar; como se os militares fossem uma espécie de seres desprovidos da capacidade de imaginar e de escrever. O que de facto não é verdade. A literatura mundial está repleta de exemplos de grandes escritores que foram simultaneamente militares. Apenas darei dois exemplos, um nacional e outro internacional: Campos Júnior e Lewis Wallace. Ao falar em Campos Júnior, pretendo lembrar um grande autor de romances históricos, que está relativamente esquecido, mas cuja obra merece ser lembrada.

Nasceu e viveu em Luanda. Recorda esses tempos? De que modo eles influenciaram a pessoa que é hoje?

Nasci, de facto, em Luanda, onde vivi até aos 9 anos, idade com que vim para o norte de Portugal, para uma pequena aldeia vizinha de Vila Real. Dos tempos de Luanda recordo a terra quente e densa, de cor avermelhada, as chuvas intensas acompanhadas de trovoadas, o cheiro das mangas maduras, das goiabas, das pulverizações sazonais contra as pragas de mosquitos, levadas a cabo por avionetas, o gosto doce das bananas bem amadurecidas (ainda hoje estranho como aqui se comem normalmente as bananas verdes), com pintas na casca, as cores garridas das penas das aves, a majestade dos embondeiros, e mais tarde a consciência de um mundo a desmoronar-se, em Berliets apinhadas de soldados, no som de tiros e em histórias macabras que passaram a circular, tão inesperadamente, como se de uma noite para o dia o mundo se tivesse pura e simplesmente transmutado.  
Mas o primeiro aroma de que me recordo, e que marca a minha consciência de ser alguém, é o de caranguejos a cozer, numa tarde de sábado, tão intenso e rico de maresia que me despertou para a vida… Aliás, nunca mais encontrei noutro local o mesmo cheiro. Tal como nunca mais me deparei com o cheiro que o mar tinha em Luanda.
E é esta consciência de perda, mas simultaneamente de ter possuído algo raro, que hoje me diz, a cada passo, que tudo pode ser mágico, mas que é certamente efémero…
Por último, não sei se o facto de ser militar tem que ver com a minha experiência de guerra, nos últimos meses, em Angola. Porventura…

“É o contacto com esta realidade, naquela época difícil, mas mágica, de espaços abertos no Verão e horizontes fechados nos longos Invernos, com montes e vales cobertos de névoas e geadas, feita essencialmente de granito e tão diferente daquela deixada para trás, que definitivamente o vai marcar.” De que maneira este contacto o marcou?

Esta referência é feita à aldeia para onde fui viver, de onde o meu pai era natural. Uma aldeia, recentemente elevada a vila, que se chama Lordelo, onde descobri que quase tudo o que sabia até àquela altura era praticamente nada. Havia uma noção de perda, de repente descoberta, e uma noção de descoberta completamente inesperada em montes, no interior escuro de minas de água, à sombra de muralhas, em carreiros apertados entre muros altos de granito: um mundo mágico, muito diferente daquele que deixara para trás. Novas tarefas quotidianas, como a de ter de ir buscar água à fonte ou a de ter de apanhar lenha para os longos meses de inverno, bem como de acartar molhos de caruma, para acender o lume e atapetar as lojas onde às vezes havia animais. Essa consciência começou a abrir novas gavetinhas no interior da minha mente, porque de facto aprendemos com o que é novo e havia subitamente tantas coisas novas na nossa vida…

Como foi vir de Angola e deparar-se com a televisão? Que impacto teve isso na altura, para si?

A televisão foi, na verdadeira acepção da palavra, uma janela mágica que se abriu para mim. Mostrou-me que o mundo tinha ainda mais diferenças do que aquelas que já me pareciam superiores à minha capacidade de entendimento. Nas grandes séries de guerra, ficção científica, históricas, nos documentários e filmes de desenhos animados percebi que havia um passado e um futuro, uma capacidade de contar o que já tinha sido e o que ainda podia apenas ser imaginado, o que é nada mais, nada menos, do que a génese da escrita, enquanto suporte intemporal da nossa identidade.

Quando e como começou a sentir o gosto pela escrita?

Antes da escrita, veio o desenho. Desenhava tudo o que via, sobretudo super-heróis, que até então não fazia a mínima ideia que pudessem existir, mesmo na imaginação de alguém.
Os livros, que sempre tinham estado na minha vida, eram-me estranhos, porque me pareciam ter demasiadas letras e poucas imagens. Por isso reparava mais nas capas, nas cores e nas ilustrações. Até que percebi que aquela imensidão de letras contava histórias…
Numas férias de verão, com 14, 15 anos, li o meu primeiro livro e foi um fascínio imediato que nunca mais me abandonou. A partir dessa altura, passei a amar os livros nunca mais deixei de ler …

Como surgiu a ideia e a oportunidade para o seu primeiro livro?

O meu primeiro livro, enquanto unidade literária – com princípio, meio e fim –, que continua inédito e provavelmente manter-se-á como tal, é uma espécie de história de ficção científica que narra a última batalha travada pelo homem. Uma história cheia de referências mitológicas, logo patente no próprio título: A Última Vinda de Marte, Deus romano da guerra. Nesse livro, escrito de forma apaixonada, tudo foi objecto da busca da perfeição; foi com ele que primeiramente me apercebi do valor das palavras, da diferença de entoações e de significados. Foi o meu primeiro exercício a sério de escrita. Quando o terminei, senti que era um escritor, que era isso que desejava fazer a partir dali.
Foi então que comecei a pensar em escrever uma história sobre a fundação de Vila Real, na verdade um livro que pretendia ser uma viagem à época medieval, tão apreciada por mim.
No entanto decorreram mais de 20 anos até que conseguisse concluí-la, o que aconteceu em 2008. Em pouco tempo apareceu uma Editora interessada em publicá-lo, o que ocorreu no ano seguinte.

Foi publicado recentemente o seu mais recente livro “ Uma linha de torres”. Como surgiu a ideia para este livro?

Este livro foi o resultado de um desafio. Tratava-se de escrever um livro juvenil, acerca das linha de Torres Vedras, destinado a ser publicado durante 2010, quando foram celebrados os 200 anos das linhas de torres. Inicialmente, resisti à ideia, porque não julgava ser capaz de escrever algo que não surgisse da mesma forma espontânea como têm surgido todos os meus livros. Porém, no final do dia, já tinha as linhas principais da acção e as personagens que lhe dariam vida. Escrevi-o apaixonadamente e em pouco mais de três semanas ficou concluído.

O que nos pode dizer sobre o mesmo, de modo a aguçar-nos ainda mais a curiosidade e a vontade de o ler?

Foi o livro mais planeado que escrevi até hoje. Defini parâmetros que tinham que ver com a dimensão, a linguagem e a facilidade de contar uma estória sobre a história que pudesse ser lida de forma apelativa por jovens que certamente nada sabiam dessa época tão conturbada, que foi a das Invasões Francesas e da nossa resistência, como povo. Tal como faço tenções de lembrar, sempre fomos um povo de resistentes e sendo a resistência o primeiro passo para a vitória, então somos naturalmente vitoriosos. A nossa história está repleta de exemplos. É importante não esquecê-lo, todos os dias e, mais importante, relembrá-lo.

Qual é a importância da escrita na sua vida?

Não se trata de uma questão de respiração, nem de alimento para o espírito, mas de uma necessidade sem hora que me visita todos os dias, com maior ou menor intensidade… Escrevo, reescrevo, imagino coisas que vou escrever… Gosto de o fazer, tal como gosto de ler, numa busca constante de novos conceitos, novas formas de refundir velhos conceitos, no fundo numa relação apaixonada com as palavras, com o que elas escondem, encerram e desvendam, quando sabemos «falar» com elas… Pois é disso que se trata: de um namoro permanente entre a minha natureza de escritor e as palavras. As palavras são seres vivos, cheios de vontades e de caprichos…

Tem algum projecto literário em mente para um futuro próximo? Se sim, pode adiantar-nos alguma coisa sobre o mesmo?

Tenho vários. Tenho sobretudo coisas escritas que desejo ver publicadas. Mas gostava de escrever sobre a Barquinha, um grande romance histórico, que está começado e que, em nome de outras coisas se encontra parado de momento. Mas quero muito recomeçá-lo… Bom, e gostava de escrever acerca dos Templários…

Por fim, deixe uma mensagem para os nossos leitores, que são fãs incondicionais de livros.

Os livros são janelas abertas para a nossa imaginação, corredores de acesso a outros tempos e lugares. Ler um livro é ter o prazer de realizar uma viagem, ou várias viagens, dentro de nós mesmos, viajar no tempo e no espaço, sem sairmos do mesmo lugar. Termos consciência disto, bom, julgo que é algo que nos faz pensar no quanto somos privilegiados quando abrimos um livro e nos deixamos levar pelas palavras de quem o escreveu.

Obrigada Emílio Miranda

1 comentário:

  1. Uma verdadeira inspiração... gostei sobretudo desta passagem: "Tal como faço tenções de lembrar, sempre fomos um povo de resistentes e sendo a resistência o primeiro passo para a vitória, então somos naturalmente vitoriosos. A nossa história está repleta de exemplos. É importante não esquecê-lo, todos os dias e, mais importante, relembrá-lo."

    Muito parabéns, foi uma óptima entrevista. E muito obrigada pela partilha, senti-me bastante inspirada com a perspectiva deste autor, que desconhecia. (Já agora, por curiosidade, aconselho vivamente os caminhos pedestres pelas Linhas de Torres).

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