quinta-feira, 21 de março de 2013

[Opinião] - "Cartas que falam" de Bruno Araujo


"O mais amargo numa rejeição ou abandono não é o facto em si, mas sim a maneira como ele toma lugar. A incerteza que nos invade nesses momentos consome-nos interiormente, sem apelo nem agravo. Nessas situações limite, culpabilizar-nos é um erro fatal.  (...) aceitar a realidade tal como ela é, e confrontarmo-nos com a crueldade e a realidade dos factos expostos diante dos nossos olhos. Não podemos ajudar quem não quer ser ajudado, não mudemos amar quem não quer ser amado, e o motivo é obvio: porque é algo que não depende só de nós."



Bem, esta é uma opinião nada fácil de escrever. A verdade é que andei a digerir o livro e a pensar o que iria dizer sobre ele antes de a escrever.

Este é um livro que tem o essencial para ser promissor: um tema bastante controverso, actual, importante e (para mim claro) com imenso por onde pegar, abordar e reflectir. É um tema que, desde inicio, me suscitou interesse, ou não estivesse eu no curso que estou. Para além disso há o facto de ser falado na 1ª pessoa, em pequenas cartas direccionadas a pessoas importantes, positiva ou negativamente, na vida do personagem, Filipe.
No entanto não foi bem esta a ideia com que fiquei a ler o livro. É sem dúvida a história de alguém que não teve uma vida fácil, que passou por coisas, por parte daqueles que supostamente nos deveriam amar incondicionalmente, que ninguém devia, alguma vez passar. Ao ser escrito na primeira pessoa, está realmente patente a raiva e o ódio acumulado ao longo dos anos, e dá a sensação de que Filipe não "perdoou" o passado e seguiu em frente. Sente-se que as cartas foram escritas com um sentido pejurativo enorme, tornando-se um bocadinho atacar quem, algum dia, me atacou. Fiquei com a sensação que, ao longo dos anos, e com o acumular de raiva, as proprias percepções de Filipe sobre as situações que ele próprio passou acabam por estar já algo enviesadas (ok, muita psicologia que não quero estar a abordar de maneira muito exaustiva). Por vezes dei por mim a pensar que também eu vivi algo semelhante, que possivelmente todos nós vivemos, e que se calhar não seria propriamente como reflectia nas cartas, mas que seria sim a visão e o sentir de alguém que já passou por muito na vida.

Refiro, por exemplo, as cartas que Filipe escreve aos colegas da escola. Foram cartas que efectivamente me revoltaram pelo conteúdo algo "arrogante" que contêm. Acredito que seja, ou tenha sido, um mecanismo de defesa que Filipe encontrou para suportar aquilo a que aqui se tenta chamar de bullying escolar. Revi-me imenso em algumas daquelas cartas... o bom aluno, o aluno com as melhores notas da turma, que é posto de parte, que é gozado pelos outros por razões algo "parvas". A questão que se me colocou foi: quem é que nunca foi gozado na escola? Especialmente nos anos escolares até ao secundário, quando as crianças são tipicamente crueis umas com as outras?Pois bem, eu fui, e aquilo por que passei não foi propriamente bullying. Uma situação que me fez recordar a minha propria vida foi uma carta onde Filipe refere o facto de ser sempre deixado para último quando era escolhido para algum desporto. Sempre fui a última a ser escolhida nas aulas de educação fisica, sempre fui gozada por não ter o minimo jeito. Daí dizer que está bastante patente o enviesamento de certas situações, pois são vistas e sentidas por alguém com uma auto-estima quase inexistente (que não se percebe bem se não existirá mesmo, pois por exemplo congratula-se por ser o mais inteligente e os outros serem mediocres perante as suas notas).

Não quero com isto tirar o dramatismo, a crueldade e a importancia que todas estas situações possam ter para quem passa por elas, e espero que não me interpretem, de todo, mal. Apenas acho que, se o personagem, Filipe, tivesse de algum modo conseguido ultrapassar o seu passado, e olhar para ele de forma tranquila e algo "de fora", sem rancor e sem dor associada tão vivamente como esta realmente existe, o livro poderia ser muito melhor e atingir ainda melhor o seu propósito.

Um dos factos que considero bastante positivo neste livro é que será, talvez, um ponto de partida para todos aqueles que estejam numa situação semelhante, que por alguma razão se sintam vitima de algum tipo de mau trato, e talvez encontrem aqui alguma força para dizerem algo, para lutarem contra isso, para dizerem um basta.

Bem, poderia continuar a divagar por aqui durante linhas e linhas, pois foi um livro que pôs a minha veia profissional a palpitar, mas fico-me por aqui. Julgo que é um livro que todos deveriam ler e tirar as suas próprias conclusões, porque a nossa percepção do mundo vai, certezamente, influenciar a nossa percepção sobre este livro.

2 comentários:

  1. Gostei muito da tua crítica, sobretudo porque é sempre bom ler a tua opinião, mais profunda e "psicológica", sensível, reflexiva... :-)
    Eu não conheço o livro, mas imagino que as palavras possam ter bastante poder e uma carga de ódio descomunal. É muito difícil o caminho do perdão e gerir o que está acumulado, nestas situações extremas. Se calhar isto é uma chamada de atenção para a necessidade da nossa intervenção de uma forma mais apoiante e preventiva, na sociedade. Assusta-me mesmo muito a quantidade de pessoas em situação de descompensação (como parece ser o resultado deste livro, quase uma tentativa de agredir e vingar o que não foi dito/feito), sem qualquer ferramenta e acesso para desbloquear esta torrente de emoções negativas, que consomem ao ponto de muitas vezes terminarem em danos físicos no próprio ou nos outros. Eu acho que estas pessoas não são fracas por não conseguirem digerir certos eventos que para elas se tornaram traumáticos (independentemente de serem enviesados ou não), acho é que a sensibilidade ou a gama de ferramentas pessoais para lidar com situações específicas não são iguais ou não estão desenvolvidas da mesma forma em todas as pessoas. É difícil fechar o passado com ou sem ajuda... para onde vai a dor? Neste caso foi para o livro :-) Mais uma vez: adorei! ;-)

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  2. Gostei muito da tua opinião. Apesar de não conseguir aprofundar tão bem a minha opinião em termos psicológicos, houve muitos pontos que referiste que também senti. O livro podia ser muito melhor se nao parecesse uma maneira de mostrar que o filipe era melhor que todos os outros.
    Mais uma vez, optima opinião :)

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